quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ingressos exclusivos da CBF são vendidos por cambistas na África

Ingressos exclusivos da CBF são vendidos por cambistas na África

Cambista admite ter fonte “oficial” para obter entradas. Esquema envolve mais de dez pessoas e funciona perto de escritório Fifa

Vicente Seda, enviado iG a Joanesburgo* | 23/06/2010 17:14
Foto: Reprodução
Ingresso destinado à CBF e comprado pelo iG de um cambista em Joanesburgo
Ingressos destinados pela Fifa à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e que não poderiam ser cedidos ou negociados fora do ambiente da delegação brasileira sob nenhuma circunstância são encontrados nas mãos de cambistas brasileiros em Joanesburgo, principal cidade-sede da Copa do Mundo da África do Sul e onde a seleção está concentrada para a disputa do Mundial.
Os ingressos contam com a inscrição "Confederação Brasileira de Futebol" no espaço destinado a indicar o proprietário dos mesmos. Segundo a própria CBF, apenas integrantes da delegação e funcionários da entidade têm acesso a essa série de bilhetes.
A venda ilegal de ingressos destinados à CBF acontece na Nelson Mandela Square, praça do principal shopping de Joanesburgo, que leva o mesmo nome. No mesmo local estão os escritórios da Fifa e do Comitê Organizador Local da Copa de 2010. Ali, cambistas brasileiros vendem ingressos, entre eles os bilhetes que pertencem à CBF, por mais de três vezes o valor de face.
O processo interno da CBF para cessão ou compra de ingressos não envolve dinheiro em espécie ou cartão de crédito. Cada integrante da delegação tem direito a uma cota pré-estabelecida. Se houver demanda maior, o ingresso que será comprado terá seu valor debitado no pagamento do requerente ao término do período de trabalho.
O bilhete interceptado pelo iG será colocado à disposição da Fifa e da polícia sul-africana, sem ser utilizado. Seu código de barras é 012000000365001264, emitido em 30/04/2010 às 16h31, para entrada Sul, portão X, terceiro andar, bloco 133, fila 16, assento 19 do Durban Stadium. Na ocasião, Brasil e Portugal jogam.
Consultada pela reportagem do iG na manhã desta quarta-feira por meio do e-mail de seu departamento de comunicação, a Fifa ainda não havia se manifestado sobre o assunto mais de dez horas depois de questionada. O iG tentou contato telefônico após esse prazo. Também não obteve retorno. Em outras consultas feitas pelo iG à Fifa, o departamento de comunicação da entidade demorou entre 12 minutos e 1h13 para enviar as informações solicitadas.
Os ingressos cedidos às federações, caso da CBF, não são os mesmos vendidos a torcedores ou patrocinadores. Mesmo nesses casos, a Fifa alerta sobre o comércio ilegal, indicando que pode chegar aos responsáveis pelo número de série dos ingressos. Neste Mundial, a entidade máxima escolheu por meio de sua parceira Match as agências autorizadas a vender ingressos em pacotes. O processo não passou oficialmente por nenhuma das federações filiadas à entidade máxima.
No verso de cada ingresso, a Fifa deixa clara a instrução aos torcedores: “Portadores de ingressos não podem vender ou transferir de qualquer forma o seu bilhete sem aprovação prévia da Fifa. As entradas só podem ser compradas da Fifa ou de agentes autorizados pela Fifa. Qualquer ingresso obtido por outra fonte será considerado inválido. Por solicitação da Fifa, o portador do ingresso é obrigado a explicar como o obteve”.
Foto: Reprodução
Ingresso comprado pela reportagem do iG
Cambistas na Mandela Square
Um dos cambistas abordados na praça pelo iG se identificou como Fernando, sempre usando uma bandeira brasileira como capa e se dizendo vereador do município de Murici, em Alagoas. “Terra do Renanzinho! (Renan Calheiros, o filho)”, fazia questão de dizer. Outro homem que ele disse ser seu irmão, Ademar, também participa do esquema. O iG apurou que o Fernando em questão é Fernando Teixeira, vereador pelo PTB no município alagoano entre 2005 e 2008.

Com Fernando foi encontrado o ingresso de categoria 1, o mais caro, para o jogo entre Brasil e Portugal. Ingressos para essa partida são os mais procurados entre os torcedores que frequentam o local, seja para assistir à partida ou mesmo para a revenda.
No início do contato, Fernando relutou em apresentar ingressos da CBF. Ofereceu entradas de outros proprietários, como “Milton Costa”. Depois, admitiu que tinha ingresso com a inscrição CBF, sob o argumento de que este não daria problema na entrada do estádio em Durban. O preço legal do ingresso: US$ 160. Na mão de Fernando: US$ 500, faltando uma semana para a partida (18/6).
Em contato telefônico no dia 21, Fernando ofereceu mais ingressos da mesma categoria, desta vez por US$ 600. Mais tarde, pessoalmente, recuou, aceitando US$ 450 por acreditar que mais bilhetes da CBF seriam comprados para as fases posteriores.
Não é apenas Fernando que agita o mercado informal na Mandela Square. Com ele, um grupo de cerca de dez pessoas atua sem receio, oferecendo ingressos a qualquer torcedor que passe pelo local. Conseguem entradas para outros jogos além da seleção brasileira. Segundo Fernando, esta é a primeira Copa do Mundo em que conseguiu trabalhar nesse esquema, “com uma máfia da p...”, como ele definiu.
Indagado se poderia apresentar a reportagem do iG à fonte, negou, alegando que o “chefão” não deixa ninguém se aproximar. Mas então aceitou vender os ingressos por um preço um pouco menor, já tendo avisado anteriormente que teria ingressos do mesmo tipo para oitavas de final, quartas de final e qualquer jogo do Brasil que os torcedores precisassem. Mas os preços, claro, subiriam a cada fase.
A compra do ingresso por US$ 500 foi feita em um local discreto, próximo à praça, com mesinhas menos expostas a quem circulava pelo lugar. Lá, mais duas mulheres aguardavam bilhetes para jogos da Argentina.
*colaboraram Daniel Tozzi e Levi Guimarães, em Joanesburgo


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